Qual é o nosso paradigma? "Quem sabe faz a hora, não espera acontecer" – Geraldo Vandré.

Qual será o próximo número da seqüência abaixo?

2, 10, 12, 16, 17, 18, 19, …

A escritora francesa Viviane Forrester, em seu livro “O Horror Econômico”, retrata sua preocupação com as conseqüências do atual modelo econômico, que impera na maioria dos países, fazendo uma reflexão sobre as suas conseqüências sociais.

Há algum tempo atrás , fizeram-me a seguinte pergunta: se o Brasil é considerado o maior país católico do mundo, o maior espírita e um dos maiores protestantes, qual o motivo de o mesmo possuir uma das cinco piores distribuições de renda do planeta, além de outras graves mazelas sociais? Onde estaria a ação deste povo que se diz cristão? E finalizaram: é para isto que vocês seguem Jesus?

Hoje, a palavra mais utilizada no dia a dia das Organizações é competitividade, temos que ser cada vez mais fortes para sobreviver no mercado. Com isto, somos levados a um processo de contínuas incoerências. Reflitamos sobre algumas situações:

  • Os pais, com melhores condições financeiras, colocam os filhos nos cursos de inglês, espanhol, francês, informática, etc. Afinal de contas, eles têm que ser competitivos no amanhã, pois no futuro terão que ser vitoriosos na selva social, onde irão lutar por espaços contra os filhos dos outros, muitas vezes filhos de companheiros que labutam lado a lado conosco. Vivenciar a infância? Bom, isso é um detalhe, o importante é que amanhã eles se tornem uns “leões” no mercado competitivo, como se fosse possível ser leão e irmão ao mesmo tempo.
  • Durante um dia de trabalho escutamos, e na maioria das vezes seguimos, muitas teorias e teses tecnicamente bem elaboradas mas, não raro, com profunda essência egoística, onde têm-se como objetivo principal ganhar o mercado e “fraternalmente” eliminar o concorrente.
  • Muitos sonham e citam os Estados Unidos como padrão de vida a seguir, mas esquecem que os americanos para terem o atual padrão de vida, utilizam mais de 30% da energia mundial, apesar de possuírem menos de 5% da população terrestre. Portanto, atingir o modo americano de viver é uma utopia que não poderá ser alcançada por todos os países.
  • O desemprego é atualmente o maior temor dos trabalhadores, levando-os a correrem desesperadamente para chegar na frente, em um processo estafante, desagregador e doloroso, para que não venham a ser incluídos na próxima lista de demitidos. E, caso percam a corrida, provavelmente ingressarão na lista dos auxiliados socialmente nas Instituições em que freqüentamos.
  • Pela rapidez da informática e da telecomunicação, os mercados financeiros são redesenhados minuto a minuto, mas com um detalhe: os países ricos continuam ricos e os pobres continuam pobres. Através de um complicado economês e financês, explicam para o seu José do sertão nordestino, ou seu Antônio do Alto Amazonas ou dona Maria, moradora do viaduto do chá, que eles estão passando fome e com os filhos subnutridos e sem escola, mas cheirando cola, porque o “capital especulativo que estava na bolsa asiática foi retirado bruscamente por uma oscilação …” e, como seu José, seu Antônio e dona Maria não são competitivos, não poderão ser considerados como seres humanos economicamente ativos.
  • Excelente máquina importada da Europa, poderá substituir 150 (cento e cinqüenta) cortadores-de-cana, modernizando a nossa indústria e tornando-a mais competitiva. Muito bom, nada contra a evolução. Mas, um detalhe: o que será feito dos canavieiros que ficarão desempregados? Como os seus filhos serão alimentados? Pois é, não precisa explicar: A partir desse momento, cresce fortemente a probabilidade de encontrá-los brevemente em uma cova, como já disse o nosso escritor João Cabral de Melo Neto, que “é o pedaço que lhe cabe neste latifúndio”, ou em algum presídio deste nosso extenso e fértil Brasil.

Vejamos, dentro de um senso crítico respeitoso, o dia a dia de um bem intencionado cristão brasileiro, ainda empregado:

  • Pela manhã, segue para o ambiente de trabalho e lá coloca a roupagem de leão para ir lutar na selva do mercado, tentando absorver, direta ou indiretamente, os clientes do concorrente ao lado, onde provavelmente devem trabalhar amigos dele, e que, talvez, na noite anterior, tenham participados juntos de um trabalho em uma mesma Instituição cristã.
  • À tarde, continua na busca frenética de maior competitividade, seguindo a cartilha comportamental onde, na maioria das vezes, o “levar vantagem” é uma bandeira que sempre tremula. Neste momento, na grande maioria dos casos, o nosso amigo pensa nos filhos, na crise do emprego, e sente-se frágil e solitário para se contrapor.
  • E, após aplicar modernos conceitos de Reengenharia e Qualidade Total, vai à noite para uma Instituição. Chegando lá, abraça, ora e trabalha sorridentemente, com companheiros que talvez já estejam incluídos como futuras vítimas no Planejamento Estratégico da empresa em que trabalha, pois são empregados da concorrente. E no outro dia, bem, no outro dia, a vida continua…

Este brasileiro cristão seria um hipócrita? Não, de jeito nenhum. É apenas mais um ser humano, bem intencionado e esforçado, mas que talvez ainda não tenha o patamar de determinação, firmeza e coragem de um Mahatma Gandhi ou de um Martin Luther King Jr., para levantar uma bandeira solitariamente.

Não estamos contra a globalização, fruto natural do avanço da tecnologia que, sendo corretamente utilizada, será um progresso na aproximação e união dos povos. Nem contra os modernos conceitos da Qualidade Total, quando a mesma é bem entendida e aplicada, colocando o homem acima do lucro, deixando clara a função social de uma Organização, tão bem colocada no inesquecível discurso de Monteiro Lobato. O questionamento está em como as mesmas estão sendo utilizadas pela grande maioria dos principais agentes sócio-econômicos.

Bom, desnecessário é continuar exemplificando. Então, onde eu quero chegar? Em uma amiga chamada CIDADANIA ESPÍRITA para, com ela, termos a coragem e a lucidez de assumirmos novos paradigmas de estruturas sociais. Temos que parar e perguntar: Para onde estão nos levando? Para onde nós queremos ir?…. Ah, “O povo brasileiro,” como dizia o antropólogo Darcy Ribeiro, com esta mistura de índios, negros e brancos é “um povo novo, é o meu povo”. É com esse povo, sofrido e danado de bom, é com ele , é com ele que eu quero ir. “Homem, não sois máquinas, sois homem” . E relembrando John Lennon: “Podem me chamar de sonhador, mas não sou só eu”.

E nós espíritas, enquanto profissionais de diversas áreas, não temos nenhum modelo diferente e mais fraterno para apresentar? O atual modelo “salve-se quem puder”, nos aponta para que futuro? Esta proposta está em consonância com a ética espírita? Lógico que não! Então, por que estamos tão silenciosos?

Analisemos alguns possíveis argumentos:

Esta ação deve ocorrer por cada espírita individualmente, fazendo a sua parte em qualquer lugar.

Sem dúvida que devemos primar por um comportamento ético em qualquer ambiente. Mas apenas esta ação isolada, leva-nos a duas situações:

  1. Perde-se força pelo próprio isolamento. Lembremos do feixe de varas;
  2. Com a ausência de estudos e debates em grupos, perderemos valiosos momentos de aprimoramentos e elaboração de propostas, bem como metodologia de ação.

Estas questões devem ser tratadas em Organizações Sociais e não em ambientes espíritas

Os espíritas devem apoiar e participar de Organizações Sociais que visem o bem da humanidade. Temos que intercambiar propostas, experiências e ações. Mas que propostas iremos intercambiar , se antes não as amadurecermos entre nós? Com certeza iríamos apresentar idéias de cunho muito pessoal , sem o necessário embasamento, pela ausência dos estudos e debates coletivos. Por exemplo: qual a proposta que os economistas espíritas enxergam para um novo modelo econômico? Eles já se reuniram em algum lugar, com este objetivo? Como intercambiar com a sociedade as referidas conclusões? Etc

Estes estudos poderiam ser feitos pelos Centros Espíritas e Federativas

Que este assunto interessa aos espíritas e consequentemente às Instituições espíritas, acredito que sim. Acho que estes temas devam ser analisados nitidamente e claramente à luz do Espiritismo, sem tabus e receios. Mas, se pararmos apenas nas Instituições acima, perderíamos em eficácia pela dispersão das pessoas , além da perda de prioridade do assunto, devido às atuais multifunções das referidas Instituições. Excesso de centralização gera ineficiência e burocratização.

Criar uma Instituição para cada área a ser analisada. Exemplo: Educação, Saúde, Ciências Humanas, Sócio-Política, Jurídica, etc

Em breve estaríamos com mais de 40 (quarenta) Instituições, gerando um excesso de descentralização, que também poderia nos levar a uma ineficácia. Em qualquer ação administrativa, temos que conciliar a liberdade com o bom senso.

Criar uma Instituição Específica, englobando todas as áreas necessárias

É uma opção lógica e coerente, sem ser excludente. Se a missão é a mesma, ou seja, “Interligar o pensamento espírita às diversas áreas do conhecimento humano, colaborando para a cidadania e a paz”, as diversas áreas conviveriam no mesmo ambiente, até pelo fato de que muitos assuntos são multidisciplinares, facilitando o intercâmbio interno. Esta opção está sendo utilizada por espíritas em Pernambuco que , desde janeiro/1997, fundaram o IPEPE – Instituto de Intercâmbio do Pensamento Espírita de Pernambuco (www.ipepe.com.br).

Paradigma, segundo Karl Albrecht, “é um quadro de referência mental através do qual as pessoas pensam e agem.”

Quais são os novos paradigmas que o Espiritismo nos convida? Como fazer a ponte destes conceitos e propostas para as nossas estruturas sociais? Passo a palavra para todos os cidadãos espíritas.

Ah, antes que eu me esqueça: a resposta para a seqüência numérica colocada no início é duzentos. Não, eu não errei. Pelo paradigma da matemática não conseguiremos encontrar uma resposta lógica. Mas pelo paradigma do português sim: é a seqüência de números que começam pela letra D. Pois é, após a resposta, volto ao título deste artigo: qual é o nosso paradigma?

“Sonho que se sonha só, pode ser pura ilusão. Sonho que se sonha juntos, é sinal de solução. Então, vamos sonhar companheiros, sonhar ligeiro, sonhar em mutirão”. – Leonardo Boff.

– Gezsler Carlos West (PE)
E-mail: gcw@oi.com.br

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