Qual é a missão do Centro Espírita?

Para responder esta questão, precisamos aclarar alguns conceitos: primeiro em relação à palavra Missão, que no meio espírita costuma estar relacionada à algum tipo de mandato especial, algum tipo de tarefa divina. Provavelmente, este conceito está relacionado a um entendimento doutrinário muito comum aos espíritas, quanto ao objetivo da encarnação ou do nascimento na vida corporal neste mundo. O espírito missionário é aquele que reencarna por amor, por desprendimento e não por necessidade probatória ou expiatória, como a maioria. A missão seria relacionada à uma condição especial e, podemos dizer, de exceção.

É desdobramento desse entendimento, a meu ver um tanto distorcido, que o missionário está, naturalmente, fadado ao sucesso. É verdade que repetimos que o missionário também pode falhar e citamos a advertência recebida por Allan Kardec na qual os espíritos afirmaram que os planos de Deus não repousariam nos ombros de um único homem, e que se ele falhasse em sua missão outro o substituiria (A Gênese), mas no fundo nós não acreditamos que um missionário possa falhar. Mitificamos o conceito e criamos o dogma da infalibilidade do espírito missionário.

Infelizmente, terminamos extrapolando este entendimento para as instituições. A tendência é ver a casa espírita também como missionária, com uma tarefa especial, divina e, por conseqüência, predestinada ao sucesso. Não duvidamos que algumas instituições tenham antecedentes de origem no plano espiritual e que tenham sido pensadas lá antes de serem concretizadas aqui. Mas também sei que isto não é um privilégio dos Centros Espíritas. Os espíritos atuam em todos os campos da vida humana e social e ajudam a pensar e construir todos os movimentos, em regime de co-participação e co-autoria com os homens e mulheres na vida física.[1]

Ora, o indivíduo espiritista está sujeito às mesmas leis naturais que qualquer outra pessoa. As Leis Divinas funcionam para ele da mesma maneira. Por que seria diferente com as instituições? E não é diferente mesmo, o que só confirma o conceito de Justiça Divina. As Casas Espíritas estão sujeitas às mesmas Leis Naturais que qualquer outra organização humana e o seu sucesso ou fracasso depende, como em qualquer outra área, primeiro das pessoas (incluindo os espíritos) que as dirigem e, em segundo lugar, dos princípios que as norteiam.

Aqui, começamos a nos aproximar do conceito de Missão que queremos discutir. Normalmente quando se fala de missão do Centro Espírita não se está falando de um Centro Espírita concreto com endereço, CNPJ e data de fundação, mas de um conceito muito mais genérico. Falamos de Centro Espírita no plano conceitual e discutimos uma missão que termina sendo aplicada e generalizada para todas as instituições.

Vou tentar ser mais claro com um exemplo fora do “universo” espírita: uma coisa é discutir qual é a missão das ONGs (Organizações Não Governamentais), abordando princípios gerais e comuns a este tipo de organização que se encontram espalhadas em diversos países, outra coisa bem diferente é discutir a missão de cada uma delas no seu contexto, na sua localidade, com seu público específico. Algumas trabalham a questão do meio ambiente, outras atuam na defesa de determinadas minorias, outras ainda dedicam-se ao combate à corrupção etc, etc.

Existem princípios comuns entre elas? Certamente. Há semelhanças administrativas? Possivelmente. Mas o que as faz peculiares, e por isso mesmo, necessárias, são as suas missões. Missões específicas, únicas e que não se sobrepõem. Podem até atuar em áreas semelhantes, mas seu contexto e seu público são diferenciados, são únicos.

Claro que não é apenas uma missão bem definida a garantia do sucesso destas instituições que têm se multiplicado no mundo e há uma conjunção de outros fatores envolvidos. Mas a definição clara da missão, e o seu compartilhamento entre todos que fazem a organização é fator preponderante, porque aponta a direção do trabalho. Todos sabem para onde querem ir, e esta clareza é fundamental para alimentar o “ânima” da instituição, mantendo dirigentes e colaboradores motivados com o trabalho.

Sem uma missão clara, é impossível, por exemplo, analisar resultados concretos. Não se tem dados com os quais se possa demonstrar o resultado do investimento em esforço pessoal, tempo e recursos aplicados no projeto. E este feedback é muito importante para manter a motivação das equipes.

Tradicionalmente, no Brasil, quando discutimos missão do Centro Espírita não saímos da discussão conceitual, genérica. Tratamos dos pontos que são comuns às instituições, dos princípios que as norteiam e que se encontram na própria Doutrina Espírita, mas não discutimos as diferenças de contexto, de público, de realidade social.

Tome-se, como exemplo, os Estatutos das instituições espíritas de qualquer ponto do país que encontraremos entre as finalidades da instituição, com pequenas alterações na maneira de escrever: o estudo, a vivência e a divulgação do Espiritismo, a prática da caridade e a transformação moral do homem. Muito bem. Como princípios gerais, ou até mesmo como valores comuns válidos para as instituições espíritas está perfeito, mas não como missão, como finalidade. São conceitos ainda vagos e que não definem para que aquela instituição que tem endereço e CNPJ foi criada. Para que ela nasceu?

Perguntei a um dirigente espírita, certa vez, qual era o público alvo de sua instituição e ele respondeu com ar messiânico: “…toda humanidade”! Numa outra oportunidade conversando com um outro dirigente que costumava elaborar planos de ação e de metas para sua instituição, ouvi-o dizer que a missão da instituição era a “transformação moral do homem”. Tudo bem, mas de que homens estaria falando? Da sua cidade? Do seu bairro? Ou dos seis bilhões que existem no planeta.

Essa tendência a generalizar demais, faz com que os centros terminem sendo um pouco cópia uns dos outros. E, de certa forma, sem considerar aspectos mais subjetivos e exceções que existem (até mesmo para confirmar a regra) quem conheceu um Centro Espírita conheceu todos. Há uma tendência a padronizar comportamentos, atividades e procedimentos administrativos sem uma reflexão maior a respeito do papel daquela instituição no contexto social a que pertence.

E isto é reforçado por “treinamentos” e “capacitações” oferecidos por instituições que organizam o Movimento nos estados e no país, cujo foco principal é a padronização e não a discussão da realidade local. Pouco se presta atenção a este aspecto. Esta é uma tendência histórica, tradicional do Movimento Espírita Brasileiro, responsável pela estagnação de muitas instituições que não conseguem crescer, evoluir porque se encontram tão descontextualizadas, tão sem foco, que as pessoas se desmotivam e se afastam buscando outras atividades que as preencham mais plenamente. A instituição vai perdendo a “alma”, o sentido, e as pessoas passam a repetir as atividades mecanicamente.

Funda-se um Centro Espírita e ninguém discute qual será seu papel naquela comunidade, naquele bairro, naquele município. Pouco se pergunta o que a instituição pode fazer para reduzir as desigualdades locais, para promover o desenvolvimento e a educação das pessoas e de quais pessoas estamos falando. Não se leva em conta o contexto sócio-econômico e político da localidade e a condição de vida da comunidade. Não nos preocupamos com dados que demonstrem pontos de estrangulamento no desenvolvimento local aonde possamos atuar… enfim… não temos uma etapa de diagnóstico local que nos traga indicações para nossa missão.

Normalmente, as casas que nascem dentro de um contexto tendem a se firmar de forma bem mais fácil como por exemplo, a instituição que nasce de um grupo de pessoas que já fazia determinado trabalho social e que se institui em torno de aspirações comuns. Infelizmente esta não é a realidade da maioria. O mais comum é que um grupo de pessoas decida fundar um Centro Espírita (muitas vezes por dissidência de casas mais antigas que já se desmotivaram) e comecem a repetir procedimentos e atividades que todas as outras já fazem ou fizeram: uma reunião pública, uma sala para aplicar passes, campanha do quilo, um grupo de mediunidade e pronto: temos mais um Centro Espírita e, provavelmente apenas isto: mais um repetindo procedimentos durante décadas sem conseguir fazer diferença no contexto social em que se situa.

Ao redor dele, a violência, o vício, o analfabetismo, a fome, as doenças continuam como há 10, 20 ou 50 anos atrás (ou até pior). Os trabalhadores desmotivados e desqualificados e a instituição acreditando que tem uma missão divina, um mandato dos céus. Temos sim, uma dívida social imensa, porque permitimos que várias gerações de uma mesma família passem por nossas casas e a mesma cesta básica que eu distribuía para a avó, continuo entregando para a neta, sem que nada tenha feito para que aquela neta não mais necessitasse dela. Mais do que falta de caridade, isto é falta de clareza na missão da instituição, falta de foco, já que não se pode atuar em todas as frentes, nem tampouco resolver a todos os problemas sociais.

Com uma missão bem definida, no entanto, podemos obter resultados concretos naquilo que nos propomos a fazer, e ser agentes multiplicadores do desenvolvimento e do progresso das pessoas numa área específica, inspirando a organização de outros movimentos que possam replicar a experiência em outros contextos.

Chego a algumas conclusões, e a principal delas é que as Instituições Espíritas precisam passar por uma verdadeira reengenharia. Nelas existe muita gente de boa vontade, capaz de grandes feitos pelas causas nas quais acreditam, mas que estão se sentindo desmotivadas ou sem um norte muito claro quanto ao seu papel. E isto é reflexo da própria falta de foco da instituição, que não tem eficiência na transformação da realidade. O voluntário, diferentemente do assalariado, alimenta-se do resultado de seu trabalho, mas ele precisa ter clareza de seu papel e de seu foco. Aonde queremos chegar? Qual o nosso público alvo? As instituições eficientes na transformação da realidade têm estas perguntas muito claramente respondidas por todos os seus integrantes.

É, portanto, muito importante que para manter a sua vitalidade, o Movimento Espírita inicie um movimento de reflexão intra-muros quanto ao papel de suas instituições. Não genericamente consideradas, mas como organizações reais, que tem um contexto sócio-econômico e político e que pode comprometer-se com a transformação desta realidade ou manter-se comprometido com o “status quo” atual.

Para isso, entendo serem fundamentais algumas ações:

  • Diagnóstico e sensibilização quanto à realidade local;
  • Intercâmbio com outras organizações e movimentos com maior experiência no campo social;
  • Especialização e explicitação das missões das Casas Espíritas com base no seu próprio contexto e redefinição das prioridades, ações e atividades;
  • Preparação (qualificação) dos voluntários para atender às missões assumidas coletivamente;
  • Viabilização de uma maior carga horária de trabalho semanal voltado para as atividades selecionadas.

Possivelmente esta auto-crítica institucional não será um processo fácil, nem simples. Há apegos compreensíveis a contextos e atividades tradicionais, herança de anos repetindo determinadas práticas, mas é preciso verificar racionalmente que podemos ser muito mais eficientes.

Vejamos alguns dados: em Pernambuco, por exemplo, são cerca de 300 Centros Espíritas, dos quais, aproximadamente 60% encontra-se na região metropolitana do Recife, isto é, cerca de 180 instituições distribuídas em todos os quadrantes da cidade. Poucos bairros do Recife não têm, pelo menos, uma instituição. Se considerarmos a possibilidade de termos pelo menos 100 pessoas em cada uma delas, entre trabalhadores efetivos e colaboradores, teremos um exército de 18.000 voluntários, isso mesmo, DEZOITO MIL voluntários numa estimativa modesta, já que a freqüência de diversas destas instituições é muito superior a 100 pessoas.

Por que este trabalho não é socialmente perceptível? Por que mais de 18.000 voluntários não são capazes de impactar positivamente a sociedade com suas realizações? Por que não são notícia? Freqüentemente criticamos a mídia por só mostrar “coisa ruim”, mas muitas iniciativas nobres têm sido mostradas pela mídia. Casa de Passagem, voluntários do Hospital do câncer, projetos envolvendo arte e cultura para jovens e crianças em escolas e comunidades, Associação de Mulheres de Nazaré da Mata – AMUNAM, Pastoral da criança, Projetos financiados pelo projeto Criança Esperança etc, etc. E onde estão os projetos dos Espíritas? Insisto: por que não são notícia? E não me venha falar em dar com uma mão sem que a outra veja, porque aqui não é uma questão de modéstia ou humildade, mas de reconhecimento público natural de um trabalho bem feito. Chico Xavier sempre foi a humildade em pessoa, mas não deixou de se tornar um dos homens mais conhecidos e reconhecidos pelo seu trabalho no Brasil.

Na realidade, o que nos falta, e que é marca comum em todos estes projetos e iniciativas que citei é uma missão bem definida, um foco claro e trabalhadores qualificados para assumir as atividades especializadas. Quando se fala em Casa de Passagem em Pernambuco você pode até não conhecer bem a instituição, mas sabe que ela trabalha na ressocialização de meninas de rua; é a sua missão. Seus voluntários e voluntárias sabem fazer e fazem com muita eficiência. Este foco bem definido permite a otimização de todos os recursos, humanos e materiais, que se voltam para metas claras e bem definidas.

Nas casas espíritas há uma pulverização de atividades tão grande que ninguém é especialista em nada. Ao contrário, o voluntário espírita adaptado a falta de foco institucional, caracteriza-se por ser uma espécie de “multi-tudo”: aplica passes, faz palestra, participa da reunião mediúnica, faz campanha do quilo, evangeliza as crianças e participa da assistência social. Ora, ninguém, nem pessoas nem organizações, conseguirão ser bons em “tudo” que fazem, se se propõem a “tudo” fazerem. E isso é lógico.

Um exemplo muito interessante é o Grupo Espírita Allan Kardec de Natal – RN. O GEAK, como é conhecido na capital potiguar, se especializou na Terapia do Passe. O coordenador deste trabalho é o conhecido escritor espírita Jacob Melo, autor do livro O Passe, seu estudo, suas técnicas, sua prática (FEB, 1992, 447p). Os voluntários são muito bem preparados, estudam as bases da terapia, as técnicas do magnetismo, anatomia humana e têm um trabalho de acompanhamento e controle muito bem feito de seus “pacientes”. O trabalho bem estruturado faz com que pessoas ligadas a outros centros espíritas da cidade façam terapia lá, mesmo havendo passes em suas instituições. E por que? Porque o GEAK tem qualidade, tem acompanhamento, assessoria médica e, o mais importante: tem resultados verificáveis não apenas pelos depoimentos das pessoas, mas por exames clínicos feitos antes e depois dos tratamentos que comprovam a cura de enfermidades. E isto não significa que o GEAK só aplica passes. Não. Têm seus grupos de estudo, reunião pública, grupo mediúnico etc, mas descobriram uma vocação especial e se dedicaram a ela, fazendo diferença.

Por que não estudamos qual a nossa vocação institucional? Por que não fazer uma autocrítica e verificar em que somos bons e em que somos apenas sofríveis? E, a partir daí, por que não reforçar os aspectos positivos, assumindo a vocação como missão da instituição? O que sua instituição faz muito bem? Que atividades estão meio mecânicas, sem alma e sem motivação? O que consegue motivar sua equipe?

Há pouco tomei conhecimento de uma instituição espírita que extinguiu um trabalho que era feito com um grupo de jovens mães a quem se distribuíam enxovais e cestas básicas indistintamente. A equipe fez uma autocrítica e chegou à conclusão que muitas daquelas mulheres, jovens e saudáveis estavam ficando dependentes da doação e não se preocupavam em lutar para conseguir trabalho de maneira a responsabilizar-se por sua própria sustentação. A decisão foi tomada e o trabalho se aperfeiçoou. Hoje, apenas um grupo de senhoras vovós é que recebem o auxílio. São elas que sustentam os netos abandonados por algumas daquelas jovens mães que entregam os filhos para as avós criarem. Esta mesma instituição, que atua numa região de periferia numa grande capital, onde droga e violência são pratos do dia, selecionou entre as diversas atividades sociais antes mantidas, quais as mais eficientes para ajudar a mudar o contexto social local. Hoje, atua com crianças e jovens da comunidade oferecendo atividades artístico-culturais e até artes-marciais para os meninos e meninas do projeto. E em que é que isto faz diferença? Nos resultados, mais uma vez. Os meninos do karatê (alguns já eram reconhecidos como pequenos delinqüentes locais) estão aprendendo a lidar com sua própria agressividade e saíram das ruas, reduzindo muito o risco de caírem nas drogas e serem vítimas da violência. O trabalho tem tido reflexos tão positivos na comunidade que pessoas de outras religiões têm se tornado voluntárias do projeto, segundo depoimento da presidência da instituição.

A falta de foco nos Centros Espíritas é tão séria, que mesmo aqueles que deveriam ter isto já bem definido pelas próprias circunstâncias não conseguem. Uma instituição, por exemplo, que mantém um abrigo para idosos. Imagina-se, naturalmente, dentro da lógica do trabalho social, que o foco da instituição seja o trabalho de promoção e de valorização do idoso, que deveria estar se relacionando com outras instituições que lidam com a causa e se associando às iniciativas de promoção do bem estar dos indivíduos da terceira idade. Mas, salvo as honrosas exceções, o que se vê na prática é que o abrigo é apenas um apêndice da instituição, mas não há uma dinâmica em torno daquele público alvo específico. Perdoem-me se minha impressão é falsa (até espero que seja), mas em alguns casos parece que estão ali mais por nós do que por eles; estão para receberem a nossa “caridade”. Nesses casos, o compromisso com aquela atividade é apenas parcial e não a missão da organização. O grupo comprometido com a promoção dos idosos não se contentará com abrigar e alimentar, mas quererá vê-los felizes, e por isso terá uma equipe capaz de promover saúde física e emocional para os vovôs e vovós. Uma equipe que estará se atualizando em estudos, em atividades e aparelhagens específicas e transformando “velhos” abandonados e sem auto-estima em cidadãos de terceira idade que voltaram a se reconhecer como pessoa. Viu a diferença?

Vivemos um período de intensa ebulição social, de grande dinamismo nas atividades e de uma velocidade vertiginosa nas mudanças que afetam o ser humano. É muito importante que o Movimento Espírita comece esta autocrítica para podermos reforçar os aspectos positivos de nossa ação no mundo e corrigir alguns graus na rota na qual navegamos para uma ação mais efetiva na Renovação Social que, conforme Allan Kardec, é o momento de culminância da evolução do Espiritismo no planeta Terra.

Sobre esta tendência de interpretar a origem sobrenatural das Casas Espíritas, ver meu livro “O Canto das Pedras” quando comentamos um artigo publicado em Reformador, do ex-diretor da Federação Espírita Brasileira Luciano dos Anjos que afirma da sobrenaturalidade daquela instituição.

– Fernando Clímaco (PE)
E-mail: fclimaco@hotmail.com

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