Olimpíada e fraternidade

Uma vez mais o mundo se reúne, seletivamente, cada qual enviando seus melhores, para os jogos olímpicos, na 25ª edição do certame, na era moderna. A Atenas de 2004 certamente não é a cidade de 1896, e os homens de hoje, biologicamente mais resistentes e fisicamente melhor preparados buscam recordes e medalhas que lhe inscrevam em livros e estatísticas, a glória que o poder temporal humano pode lhes proporcionar.

Há os que mencionem o conteúdo negativo dos jogos que ilustram em cores vívidas a abissal diferença tecnológica e estrutural entre países ricos e pobres, entre os que dispõem de recursos e os que mendigam verbas públicas ou privadas para construírem suas carreiras de atletas. Como pano de fundo, o cenário político internacional, com a derrocada do imperialismo ianque e a recomposição dos Estados em blocos geopoliticoeconômicos e a abertura (crescente) dos mercados. Isto sem falar, é claro, na constante ameaça das expressões brutas e trágicas que atentados possam produzir.

Censura-se, em paralelo, que o desiderato seja não a competição mas a busca desenfreada pelos primeiros lugares, em que a classificação final deverá consolidar o império americano em posição de primazia.

Mas, em outra diretriz, não se pode olvidar que as Olimpíadas materializam o tom da fraternidade na convivência plural e que nos ginásios, quadras, piscinas, canchas, tablados, mesas, estádios e complexos esportivos, haja o princípio de isonomia na participação e na possibilidade da vitória, graças aos mecanismos avançados de controle, julgamento e análise laboratorial, para que a “justiça” seja feita e premiem-se os melhores. Fraternidade que uniu os representantes esportivos das nações na cerimônia de abertura, recém-transmitida, e que será o tom da convivência diária nos alojamentos e nos locais de competição até o encerramento. Entre os espectadores ao vivo das provas, também, em termos de assistência e torcida, membros de diversas nacionalidades hão de conviver em clima de tolerância e amistosidade, sem maiores excessos.

Este é o clima desta época. A vida é, em essência, competição, apesar de não ser, no contingente espiritual, de uns contra os outros, porque a oposição que se instaura entre os seres, na vida material, é a decorrência direta da forma ainda acanhada de entender o próprio processo reencarnatório e a plenitude espiritual. Competimos por melhores condições, na escola, no trabalho e, até, nos ambientes espíritas. Nosso desejo de êxito e sucesso, nas mínimas atividades cotidianas, às vezes, pode representar a falência, o insucesso do outro, e, em larga acepção a preferência e a simpatia de alguém em relação a nós, em detrimento de outrem.

Por isto, ainda que a competição esportiva nos afague o ego de brasileiros, com “vitórias” e “conquistas”, devemos tirar do momento a lição de que, um dia, na dinâmica evolutiva, estaremos competindo associativamente, sem bandeira ou cor, para vencer a fome, a ignorância, a indigência e a injustiça experimentada por muitos. Neste momento, o pódio será verdadeiramente grande para incluir a todos, sem discriminações, representando o cumprimento de mais uma tarefa e o credenciamento para novas outras.

Que o “espírito” olímpico, então, fomente em nós a resistência, o esmero, a constância e a disciplina para podermos largar e chegar com a consciência espiritual do trabalho e do progresso. Comemoremos, então, a vitória da vida e do despertar dos seres em caminhada, tanto quanto seja possível!

– Marcelo Henrique (SC)

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