O projeto social de Jesus Uma breve visão política sobre a "utopia" de Jesus

1. Apresentação

O projeto social de JesusQuanto abordamos a vida e a obra de Jesus de Nazaré, em geral somos levados a ter uma relação um tanto romântica com aqueles tempos. Uma visão nada compatível com a realidade histórica dos tumultuados tempos de Jesus. Tempos difíceis numa região permanentemente invadida e disputada por vários povos.
O presente artigo não pretende abordar temas obscuros ou polêmicos de Yoshua ben Yussuf (Jesus, filho de José), mas os aspectos políticos de sua atuação nas terras da Palestina dos Césares.

A partir de alguns trechos que consideramos particularmente significativos para nossos propósitos, tentaremos vislumbrar o projeto social de Jesus para a humanidade. Partindo de sua “utopia” pessoal: o “reino de Deus na Terra” e de versículos do Evangelho (literalmente Boa Nova ou Boa Notícia) de Mateus, que conviveu com ele já em idade madura, segundo os dados históricos disponíveis, procuraremos ressaltar o homem Jesus, as motivações e intenções que o levariam a ser julgado como criminoso político e crucificado.

“Jesus Nazareno, rei dos judeus”. Estes dizeres colocados na tabuleta que encimava a cruz em fora pregado não deixam dúvidas quanto ao teor eminentemente político dado ao “caso” Jesus, e que motivaram suas ações, a perseguição que lhe foi movida pela cúpula judaica e pelos romanos, culminando com sua morte na cruz, conforme o costume daqueles tempos. O mesmo fizeram com Spártaco, o escravo rebelado, e com seus seguidores tempos antes.
Aspectos polêmicos da vida de Jesus, como sua idade real ao ser crucificado, o que fez e onde esteve entre os doze e trinta anos de idade, seu relacionamento com Maria de Mágdala, ou se tinha ascendentes celtas, não fazem parte da reflexão ora apresentada ao leitor ou leitora, bem como detalhes históricos, biográficos (sua família consagüinea), os relativos ao local de nascimento etc.

Jesus foi um ser excepcional, sem dúvidas. Sua presença, direta ou indireta, está em todas as culturas modernas. Gandhi o citou várias vezes durante sua luta pela libertação da Índia do jugo britânico.

A diferença entre os dois é que Jesus pretendia uma libertação plena, à semelhança de Buda e de Sócrates. Esses três tinham algo em comum: a emancipação total, sintetizada na frase de Jesus sobre o conhecimento da verdade e da verdade como instrumento de (auto)libertação.

Mais um esclarecimento. Cada um dos quatro Evangelhos, o de Mateus, o de Marcos, o de Lucas e o de João, possui características próprias, com um ponto em comum: todos foram escritos muito tempo depois da morte de Jesus, de memória ou a partir de anotações esparsas anteriores. Pelo menos é que se apurou até o presente.

Vamos admitir que se as frases atribuídas a ele não forem literais, devem traduzir-lhe razoavelmente o pensamento e sua doutrina, e é sobre esses pensamentos que se apoiará nossa reflexão. O porquê de escolhermos o Evangelho de Mateus já foi esclarecido anteriormente. O de Marcos é considerado o mais histórico de todos, o de Lucas foi escrito a partir de informações de terceiros, principalmente de Maria, mãe de Jesus, e o de João é visto como o mais esotérico ou filosófico de todos, com influência da escola de Alexandria segundo alguns estudos comparativos.

Enfim, os Evangelhos citados acima são, a rigor, atribuídos aos que os assinam. São os Evangelhos canônicos tradicionalmente aceitos, embora se saiba da existência de muitos outros tidos como apócrifos. A descoberta de manuscritos muito antigos na década de 1940, próximo ao Mar Morto, veio lançar mais alguma luz sobre esses tempos longínquos, mas nosso breve estudo prescinde deles.

2. A origem da doutrina de Jesus

Uma leitura atenta dos Evangelhos canônicos nos mostra que os ensinos e a própria conduta de Jesus possuem elementos da filosofia grega (ponto de contato com as idéias do filósofo Sócrates), mas também e principalmente com o budismo.

Um filósofo moderno que se debruçou sobre a questão foi Arthur Schopenhauer (1788-1860), em seu ensaio “Da morte e sua relação com a indestrutibilidade do nosso ser-em-si” (A obra-prima de cada autor. Martin Claret Editora. São Paulo, 2002, p. 51), de onde transcrevemos o seguinte:

“A hipótese de que o homem é criado do nada conduz necessariamente à de que a morte é seu fim absoluto. Nesse ponto, por conseguinte, o Antigo Testamento é no todo conseqüente, pois a uma criação tirada do nada não admite nenhuma doutrina da imortalidade. O cristianismo do Novo Testamento possui uma tal doutrina porque é de espírito indiano, e portanto (isso é mais do que provável) é também de origem indiana, embora com a intermediação egípcia. Somente para o povo judeu, no qual aquela sabedoria indiana tinha de ser enxertada na terra prometida, uma tal doutrina se adapta tanto como aquela teoria da liberdade da vontade à sua criação, ou como
humano capiti cervicem pictor equinam Jungere si velit – (1)

É sempre mau se não se pode ser completamente original e não se pode talhar na madeira maciça. O bramanismo e o budismo, ao contrário, muito conseqüentes com eles mesmos, admitem ao lado da continuação da existência após a morte uma existência antes do nascimento, da qual a vida presente se destina a expiar as faltas.”

Todo este ensaio de Schopenhauer é muito interessante, mas o trecho acima já é suficiente para nossos propósitos.

É perfeitamente admissível que a doutrina elaborada por Jesus tenha suas origens na Índia, particularmente no budismo, com a intermediação egípcia e também grega. De fato, se nos colocarmos na Palestina dos tempos apostólicos, veremos uma região governada pelos romanos, onde os “nativos” falam aramáico, a língua latina é de uso dos dominadores, o grego é a língua culta e o pensamento egípcio permeia todas aquelas três culturas: romana, judaica e grega.

– Se o pintor quisesse colocar uma cabeça humana / em um pescoço de cavalo. (N. do T.)

É nesse contexto sociocultural que Jesus tentará implantar sua doutrina, pelos caminhos oferecidos pela liderança carismática e da Desobediência civil (2), ao contrário de outros líderes de seu tempo e das expectativas da própria população judaica que aguardava um novo líder guerreiro, como os reis Saul ou Davi.

Porém, o discurso de Jesus não está nos moldes do rebelde Barrabás (Yoshua bar Abba), que roubava para comprar armas e deliberando promover uma insurreição popular contra os romanos, idéias que também visitaram a mente de um dos seguidores de Jesus: Judas Iscariotes.

Cabe aqui outro paralelo doutrinário entre a resistência pacífica de Jesus e as idéias de Buda. Para este a compaixão era fundamental. Não apenas compaixão para com os outros seres humanos, mas para com todos os seres da criação.

Jesus adota a palavra caridade como pedra angular de sua doutrina, porém com os mesmos propósitos, indo além com sua máxima de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo com a si mesmo (Mateus 22, 37-40).

Compaixão e caridade convergem para um mesmo sair de si. É a implantação da solidariedade, da compreensão e do altruísmo como modo de vida; um novo ethos é proposto para indivíduos e comunidades.

Desobediência civil: “A Desobediência civil é uma forma particular de desobediência, na medida em que é executada com o fim imediato de mostrar publicamente a injustiça da lei e com o fim mediato de induzir o legislador a mudá-la. Como tal é acompanhada por parte de quem a cumpre de justificativas com a pretensão de que seja considerada não apenas como lícita mas como obrigatória e seja tolerada pelas autoridades públicas diferentemente de quaisquer outras transgressões. Enquanto a desobediência comum é um ato que desintegra o ordenamento e deve ser impedida ou eliminada a fim de que o ordenamento seja reintegrado em seu estado original, a Desobediência civil é um ato que tem em mira, em última instância, mudar o ordenamento, sendo, no final das contas, mais um ato inovador do que destruidor.” (Norberto BOBBIO. Dicionário de Política. EDUNB. p. 335)

3. Versículos representativos retirados do Evangelho atribuído a Mateus, apóstolo de Jesus.

Primeiramente cabe-nos esclarecer que usaremos a tradução mais comum e conhecida, efetuada por João Ferreira de Almeida. Assim, o leitor ou leitora interessado(a) poderá consultar os capítulos e, se sentir-se estimulado, aprofundar suas próprias reflexões.

Nota biográfica de Jesus de Nazaré: Nascido em Belém, na Judéia, possivelmente em 753 da fundação de Roma (6 a.C.), quando seus pais, Maria e José, estavam de passagem por Jerusalém devido ao recenseamento obrigatório. Cresceu em Nazaré, na Galiléia, região onde fez pregações da sua Boa Nova. Morreu crucificado próximo a Jerusalém, após um processo que lhe foi movido por autoridades judaicas que o acusaram de traidor da fé. Para os romanos os riscos do discurso de Jesus eram de natureza política, daí seu julgamento e condenação como subversivo, presume-se que quando Jesus tivesse 33 anos de idade.

3.1 João Batista e Jesus

Não é possível analisar a “opção política” de Jesus sem citar, mesmo que de passagem, seu primo João Batista. Ambos tinham quase a mesma idade, mas João Batista iniciara suas pregações quando tinha 26 ou 27 anos. Eram discursos inflamados quanto à necessidade de desapego aos bens terrenos, aos poderes temporais e ao estímulo a uma conversão ou “renascimento” para uma nova vida, mais simples e solidária. Há quem afirme ter sido João Batista um membro da seita dos Essênios, de vida monástica e austera.

João Batista tinha bem claro para si seu papel de precursor. O papel de alguém que prepara o terreno, do ponto de vista cultural, para outro que lhe sucederia. Não há dúvida que Jesus seguiu as idéias de João Batista por algum tempo, desvinculando-se delas ou talvez superando-as e ampliando-as de acordo com seu projeto de renovação social, capaz de abarcar outras culturas, assimilando-as ou, o que era mais provável, sendo por elas assimilado.

João Batista e Jesus pregam simultaneamente por algum tempo. Talvez o primeiro servisse de cortina de fumaça para as pregações iniciais de Jesus, já que os temores de insurreição recaiam inicialmente sobre João e não sobre Jesus, cujo discurso era mais moderado.

Quando em 29 d.C. João Batista é preso e decapitado por Herodes Antipas, as preocupações das autoridades romanas e judaicas se dirigem para Jesus que, a esse tempo, já ganhava notoriedade em toda a região, atraindo adeptos de povos vizinhos, de diversas seitas, castas e camadas sociais.

Por falar ao ser humano, homem ou mulher, rico ou pobre, senhor ou escravo, qualquer que fosse a etnia ou nacionalidade, Jesus teve nesse aspecto de sua doutrina seu ponto mais forte: o ecumenismo, contrabalançado pelo risco potencial de encontrar resistências e adversários em qualquer lugar, particularmente entre os privilegiados ricos e os detentores do poder político e econômico.

3.2 Mateus 5, 1-12; Síntese doutrinária (O sermão do monte)

É a síntese da doutrina de Jesus. Nesses versículos temos todo o seu pensamento de forma um tanto poética, mas direcionada ao povo simples que o ouvia. Mesmo que haja problemas de tradução ou mesmo interpolações, vemo-lo dizer que são bem-aventurados os pobres de espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacificadores, os que sofrem perseguição por causa da justiça, os que forem perseguidos por causa dele e termina dizendo que assim aconteceu com os profetas que viveram antes.

Essa proposta de conduta naturalmente exige mudanças radicais considerando o que é tido como válido nas culturas modernas. Já houve quem afirmasse que tais propostas enfraquecem a pessoa, tornando-a frágil, vulnerável e passiva num mundo violento. Numa primeira leitura é isso que se apresenta aos nossos olhos. Pode ser, entretanto, que com a adesão da maioria a um modelo de comportamento que possa primar pela alteridade e pelo respeito mútuo a vida social ganhe novos contornos.

De qualquer forma, são atitudes assumidas individualmente com o ônus que acarreta para seu seguidor. Baseia-se na premissa de uma vida após a morte ou em compensações, porque de outro modo não faria sentido deixar-se violentar de tal forma sem reagir. Talvez encontrem-se aqui, no sermão do monte, os principais elementos da desobediência civil proposta por Jesus, equivalente a “ahimsa”, a doutrina da não violência, proposta e praticada por Mohandas Gandhi no século passado. Uma doutrina, na verdade, forte em seus aspectos de usar a fé como poderosa arma política mas sem o uso da força física.

3.3 Mateus 5, 23-24; Reconciliação

Nesses versículos está a proposição de reconciliação com os outros antes de se depositar uma oferta no altar. Bastante simples de se interpretar, pois se uma pessoa está ressentida ou odeia alguém, a rigor não faz sentido demonstrar apreço à divindade estando em litígio com outrem. Jesus sem dúvida privilegia o bom relacionamento humano em detrimento de manifestações exteriores de fé.

3.4 Mateus 6, 1-5; Prática não ostensiva da caridade

Aqui temos uma clara orientação quanto à prática da caridade de forma intima e particular, sem “tocar trombeta” ou deixar que saiba “a tua mão esquerda o que faz a tua direita”.

Fazer o bem sem ostentação inibe a vaidade pessoal ou grupal. Mesmo a filantropia, anunciada pelos órgãos de comunicação, a bem da verdade contraria esse pressuposto, pois faz promoção pessoal ou de organizações, principalmente quando parte do Estado já que daí se procura retirar os dividendos políticos com o uso do dinheiro público.

3.5 Mateus 6, 19-20; Desapego aos bens materiais

Recomendação clara a uma vida simples, modesta e mais saudável. Não ajuntar tesouros que a traça e a ferrugem possam consumir é uma advertência quanto aos possíveis malefícios causados pelo mau uso da riqueza, principalmente quando esta deixa de ter finalidade social, reduzindo-se a atender interesses pessoais. Sobretudo, para quem deseja ocupar-se com as coisas do intelecto ou do espirito os cuidados que as riquezas exigem tomam precioso tempo.

3.6 – Mateus 7, 1-3; Não julgar

Como ninguém sabe com exatidão o que leva alguém a tomar determinadas decisões ou a fazer determinadas coisas o mais prudente é não fazer juízo de valor. É comum dizer-se que cada acontecimento tem três versões: a minha, a sua e a verdadeira. Isso não quer dizer que não se possa ou não se deva avaliar ou analisar situações ou condutas. A advertência se refere à pessoa humana enquanto tal.

Se alguém ocupa um cargo ou exerce alguma função, naturalmente deve e será avaliada em seu desempenho, se não pelos seus superiores o será pela opinião pública. O julgamento puro e simples pressupõe que nossos conceitos são suficientes e os mais acertados, além de que nossa capacidade de discernimento estaria acima de todos os riscos de erro, o que não ocorre. Ninguém tem todos os detalhes de qualquer coisa para julgar, no sentido estrito da palavra.

3.7 Mateus 9, 10-12; Ausência de preconceitos

Jesus visitava e comia em casa de gente considerada ruim pela opinião pública da época, além de freqüentar locais considerados impróprios para uma pessoa de bem. Porém, era homem desprovido de pré-julgamentos, preconceitos ou discriminação, daí seu envolvimento com gente considerada vulgar. Com esse comportamento dava exemplo de que todos merecem atenção e mesmo uma “segunda chance” (oportunidades) para se redimirem de seus erros.

3.8 Mateus 10, 34-35; Doutrina inovadora

Nesses versículos Jesus alerta para os efeitos de sua doutrina. Diz ter vindo trazer a espada e não a paz. Naturalmente uma metáfora relacionada às divergências que passariam a acontecer no seio das próprias famílias e da comunidade, a partir de suas idéias e das adesões que surgiriam. Uma mudança tão radical de princípios, tanto hoje quanto naqueles tempos, acarreta resistências até mesmo da opinião pública. Sabendo disso alerta seus eventuais seguidores sobre o preço a pagar pela adesão à sua causa.

3.9 Mateus 11, 12; Fé imposta pela violência

Jesus menciona o uso da violência para controle das coisas sagradas e naturalmente as religiões que assumem papel meramente político ao lado dos poderosos. O “reino dos céus” é tomado pela força e objeto de violência, diz ele. A história confirma tal assertiva pelas inúmeras guerras e conflitos por motivação religiosa ao longo desses dois mil anos. Jesus reprova categoricamente aqueles que usam da força para impor qualquer tipo de fé religiosa ou o uso da religião como mecanismo de controle e manipulação social e não de educação da sociedade.

3.10 Mateus 15, 17-20; O que procede do coração / conduta

O que sai pela boca procede do coração, diz ele. A linguagem reflete os sentimentos e pensamentos das pessoas. Diz ainda que essas coisas, se ruins, contaminam o homem e por extensão a sociedade. Refere-se à mentira, à intriga, às mortes e todas as coisas negativas decorrentes do mau uso da palavra que espelha o que vai na alma de cada um.

3.11 Mateus 19, 24; O apego à riqueza

É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no “reino de Deus”. Alusão clara às preocupações daqueles que possuem riquezas materiais e que ocupam-se primeiramente com elas. Além disso, as riquezas abrem possibilidades inúmeras para seus possuidores. Podem fazer o bem em larga extensão, tanto quanto podem produzir estragos imensos para si e para a sociedade em função do poder que o dinheiro dá àquele que o possui. Daí que a possibilidade de um rico preocupar-se com as coisas espirituais é pequena dado o seu envolvimento com as questões terrenas e os prazeres e facilidades que a riqueza proporciona. Não poder servir a dois senhores, a Deus e a Mamom, (dedicar-se simultaneamente às coisas da vida material e às coisas do espírito) é outro alerta sobre os riscos inerentes ao apego ao dinheiro.

3.12 Mateus 21, 11-13; Simonia

A entrada de Jesus no templo, expulsando de lá os mercadores, é atitude enérgica ao extremo e muito significativa no contexto de sua doutrina. Simonia é o comércio das coisas sagradas ou espirituais. O que faria Jesus em nossos dias, quando o mercado de produtos esotéricos cresce e torna-se um setor da economia dos mais promissores? A própria fé tornou-se mercadoria oferecida nos balcões de todo tipo de seita. Vivemos um verdadeiro fast food da fé, com um cardápio bastante variado. Há evidente contradição entre o ensino de Jesus e a prática de muitos de seus pretensos seguidores.

3.13 Mateus 22, 16-22; Vida material e vida espiritual

O ardil armado contra Jesus ao lhe perguntarem sobre se deviam ou não pagar o tributo a César foi habilmente contornado quando ele lhes pediu uma moeda e perguntou a seus interlocutores de quem era a efígie. Como era de César, respondeu simplesmente que se desse a César (ao mundo material) o que é de César e a Deus (à vida espiritual) o que é de Deus. Separou assim os interesses e contingências próprios a uma e a outra esfera de vida, considerando que cada pessoa pode escolher dar maior relevância a uma do que à outra.

3.14 Mateus 23, 32-36; Ação enérgica diante dos costumes

Nesses versículos Jesus reprova a forma como os judeus receberam aqueles que o antecederam nos ensinamentos relativos às coisas espirituais. Os profetas ou foram desprezados ou foram mortos, sem que houvesse mudanças significativas nos costumes.

Afirma que o “sangue dos justos” recairia sobre eles, numa alusão às conseqüências do desprezo pelos ensinos anteriormente transmitidos. De igual maneira, a humanidade atual sofre os efeitos do desprezo pelos alertas relativos ao nosso meio ambiente, aos valores subvertidos, à permissividade e pelos ensinos que regularmente aparecem pela palavra de pensadores, religiosos e cientistas.

3.15 Mateus 26, 6-7; Respeito pelas mulheres

Nesse trecho do Evangelho de Mateus, quando uma mulher traz um óleo precioso e lhe derrama nos cabelos, Jesus demonstra mais uma vez a atenção e respeito que dedica à mulher, numa sociedade machista e patriarcal. Nos quatro Evangelhos, em diversos momentos, vemos Jesus tratar as mulheres da mesma maneira atenciosa, demonstrando que, ao contrário dos costumes vigentes, dava às mulheres o direito de partilhar de sua presença em condições de igualdade com os homens, o que não deixava de causar estranheza a alguns de seus seguidores, particularmente a Pedro. Com isso, Jesus estabelecia um novo modo de relação entre homens e mulheres, estabelecendo a igualdade de direitos pelo exemplo que dava nessas ocasiões.

3.16 Mateus 27, 11-12; Julgamento político

Quando Pilatos interrogou Jesus, perguntando-lhe se ele era o rei dos judeus, este lhe respondeu; “Tu o dizes”. Ele não era e não se considerava um rei terreno, mas um mestre ou tutor espiritual. Porém, certamente não seria fácil, já esgotado pelos interrogatórios e previamente condenado pelas autoridades judaicas, tentar uma pregação no sentido de explicar seus intentos e motivações naquele momento. Escolheu o silêncio sabendo das conseqüências dele. É possível que Pilatos tenha interpretado seu silêncio como uma resposta negativa e deve tê-lo qualificado como apenas mais um daqueles profetas que vez por outra apareciam e eram estimulados à liderança guerreira, segundo as expectativas do povo judeu. Como Jesus não correspondera ao que o povo desejava, apesar de sua evidente liderança, o ressentimento popular foi estimulado pelo Sinédrio que temia muito mais suas denúncias do mau uso da Lei de Moisés.

Não parece haver dúvidas quanto ao caráter político que o processo contra Jesus tomou, pouco a pouco. Para Jesus, depois de preso, a situação era irreversível. Não poderia contar com a complacência do Sinédrio e os romanos precisavam do apoio das autoridades judaicas naquela região permanentemente tumultuada e politicamente explosiva. Condenar e executar Jesus como um subversivo foi a saída mais simples. Ele era inocente e sua condenação foi fruto de um casuísmo.

3.17 Mateus 27, 37; O rei dos judeus

Segundo o versículo 37, a inscrição na tabuleta colocada na cruz de Jesus dizia: “Este é Jesus, o rei dos judeus”. Foi colocada a mando de Pilatos, contrariando interesses do Sinédrio que não queria dar o qualificativo de rei a Jesus, já que tal condição os colocava em situação difícil diante do povo. Porém, aqui também aparece a possibilidade de Pilatos ter aproveitado a situação para reafirmar sua posição de comando na Palestina. Ao manter a condenação e a inscrição na tabuleta, passava a imagem de quem tinha debelado uma perigosa insurreição popular ainda em gestação e que teve seu líder apanhado antes que agisse. Como será que a notícia da execução do “rei dos judeus” deve ter repercutido em Roma, capital do império?

Uma observação: Quando Pilatos lava as mãos simbolicamente, dizendo não ser responsável pelo “sangue desse justo”, não se exime da responsabilidade da condenação já que ele era o mandatário maior na Palestina e poderia ter tomado outras medidas que não culminassem com a morte de Jesus. Porém, não querendo indispor-se contra o Sinédrio, já que precisava dele para governar, tomou tal atitude compatível com os costumes políticos daqueles tempos.

4. Conclusão: A “plataforma política” de Jesus.

Diante desta breve reflexão seria admissível um Jesus que se apresentasse, hoje, com uma plataforma política? Certamente, não. Jesus de Nazaré tinha um projeto social amplo e suficiente para atender a todas as pessoas. Contempla o indivíduo, considerando-o como sujeito, e ao mesmo tempo a coletividade, estabelecidas as regras mínimas de convivência, baseadas na caridade, no sentido mais amplo que a palavra possa ter.
Caridade que não se restringe a dar coisas. Caridade como compartilhamento de sentimentos e de espaços físicos ou simbólicos, de um exercício de boa convivência, de respeito a si mesmo e ao próximo visto como igual, seres oriundos de uma mesma fonte à qual ele nomeou simplesmente Pai.

Jesus, filho de José, carpinteiro, e de Maria, “do lar”, ele próprio um carpinteiro, demonstrou ser uma pessoa generosa ao extremo, pacifista e pacificador, porém enérgico quando necessário e consciente de seus propósitos. Foi um militante social e não um fundador de religiões, por isso não pode ser responsabilizado pelo que fazem usando seu nome ou ensinos.

A doutrina social de Jesus é, em sua essência, bastante simples, pois parte de princípios e valores que podem ser considerados universais, que visam o bem-viver, daí que é assimilável pelos mais simples do povo, desde que não manipulem ou façam adaptações de seus ensinamentos como tem acontecido ao longo dos séculos. Suas parábolas ainda são atuais e instrutivas.

Ele dirigia-se eminentemente à maioria pobre de recursos materiais e de esclarecimentos, mas não foi exclusivo em sua fala, tanto que teve adeptos mesmo entre os conquistadores romanos de seu tempo.

(Este texto é de livre circulação desde que mantida sua integridade. Seu propósito é unicamente estimular reflexões mais maduras sobre esse personagem bastante conhecido pelo nome, porém ainda desconhecido quanto aos seus propósitos inovadores e renovadores. (o autor / maio-2005)

– Paulo R. Santos ( MG )

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