O brincar e o ensino das virtudes

Na Grécia Clássica, há dois mil e quatrocentos anos, começava a surgir entre os gregos a preocupação pela formação dos cidadãos.

No seio da civilização grega, através de filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, desenvolveu-se a noção de paidéia: sintetizada no intuito de formar o caráter do cidadão segundo um ideal superior. Ou seja, desejava-se que o destino feliz da pólis – da cidade grega – estivesse assegurado através de uma formação que levasse o jovem à excelência, através do cultivo das virtudes.

Essas virtudes envolviam o bem falar, o bem escrever, o gosto pela arte, o aprendizado da justiça, o desenvolvimento da razão e o aprendizado da cultura em geral, no intuito de formar um cidadão capaz de participar na vida social como protagonista.

Para Platão, este ideal de formação deveria iniciar-se já na infância, no período das brincadeiras ou puerilidades. Segundo o filósofo grego, o brincar das crianças, a natureza de suas brincadeiras e jogos, traziam repercussões para a fase adulta, as quais poderiam assegurar a ordem ou então perturbar a vida social. Dessa forma, na visão do filósofo grego, era preciso estimular o “brincar honestamente”, ou o “jogo conforme a lei”.

As brincadeiras das crianças deveriam, assim, serem supervisionadas pelos adultos, a fim de que no meio das brincadeiras não se misturassem falsos conceitos, o desrespeito e o cultivo de tudo o que se afastasse da lei e das virtudes.

Para o filósofo ateniense, como percebemos, a manutenção da ordem e a garantia de um futuro promissor para a pólis grega passava pela observância do brincar das crianças. De outra forma, estariam lançadas as sementes dos crimes, do desrespeito às leis e da infelicidade para todos os cidadãos.

As considerações de Platão estariam ultrapassadas, ao refletirmos sobre a educação infantil em nossos dias? Pensamos que não… Sem dúvida, a tarefa de observar o brincar das crianças se faz relevante. Qual a natureza da brincadeira? É uma guerra? Qual o motivo da guerra?

É lícito ao adulto observar e intervir, buscando compreender a brincadeira, o que será percebido pela criança como interesse e afeto. Não se trata de encerrar a brincadeira, mas compreender as intenções da criança, a natureza dos pensamentos e dos sentimentos que ali estão envolvidos.

Melhor ainda se faz quando o adulto participa deste momento, adentrando no universo lúdico da criança. As crianças adoram ouvir as opiniões dos pais sobre o que estão fazendo, principalmente quando pequenas. Segundo o psicanalista Erik Erikson (1960), os pais devem transmitir às crianças uma convicção quase orgânica de que tudo o que fazem possui sentido. Assim, ao comentar uma brincadeira, apresentando argumentos sobre o que observam, os pais não reprimem o brincar, mas apresentam ao pequeno ser as diretrizes da cultura na qual este se desenvolve, apresentando-lhe paulatinamente aspectos das leis e costumes que, como membro de uma comunidade, também está convidado a seguir.

Tal participação do adulto, por outro lado, permite ao mesmo investigar a natureza daquele espírito com quem convive. Podemos identificar nas brincadeiras se a criança traz uma tendência solidária, gérmen de um senso de justiça inato; ou então se se trata de um pequeno déspota, o qual deseja controlar a tudo e a todos, indicando a provável existência de um espírito que já passou pela posição de governante… de uma nação, de um Estado, ou mesmo de um lar, no qual fora tirano implacável, internalizando o falso conceito de que as outras criaturas participam de sua vida para lhe servir.

No brincar, como propôs Platão, ao estabelecer regras em uma brincadeira com os amigos, ensaia-se para a criança sua convivência em sociedade, como futuro adulto…

Aqui se torna relevante a seguinte indagação: estamos dando a atenção devida a este aspecto tão importante, o qual já era uma preocupação do grande filósofo grego, há mais de dois mil anos?

Freqüentemente, considera-se sem importância que a criança imite danças sensuais dos adultos, em determinadas músicas de mau gosto; acha-se até bonito! Noutras vezes, quando a criança se mostra violenta e cruel com os amigos ou com os animais, se relativiza o acontecimento… Sem percebermos, tudo vai sendo impresso nos painéis da mente do pequeno ser em desenvolvimento. Tudo acaba por ser um aprendizado para a criança, que ao ter o olhar dos pais sobre si, interioriza o que pode ou o que não pode, o que é correto ou incorreto.

Mais de dois mil anos após a teorização platônica, em meados da década de cinqüenta, do século XX, um psicólogo e pesquisador norte-americano chegou a conclusões semelhantes àquelas esboçadas pelo filósofo grego sobre o papel que o brincar e o mundo adulto desempenham na vida infantil.

Albert Bandura, um dos mais proeminentes teóricos da chamada aprendizagem social, desvinculou-se de teóricos comportamentais, como Skinner, para quem o comportamento era explicado somente em termos de condicionamentos provocados por agentes externos.

Bandura e seus colaboradores descobriram que as pessoas, somente observando o comportamento de seus pares, podem aprender comportamentos, os quais se tornam significativos para elas. Em outras palavras, nós aprendemos a predizer o que pode acontecer conosco caso executássemos uma ação semelhante a que observamos, elaborando hipóteses sobre as possíveis conseqüências de nossos atos.

A este processo de aprendizagem cognitiva o psicólogo norte-americano denominou reforço indireto ou “reforço vicário”.

Esta nova teoria psicológica e suas pesquisas trouxeram informações muito importantes para pais e educadores, dentre elas, a de que as crianças aprendem novos comportamentos somente observando um filme ou um desenho na televisão, por exemplo. Dessa forma, a anterior suposição de que a criança somente aprendia ao receber uma ação direta e externa sobre suas ações, estava superada.

Bandura, ao expor crianças de pré-escola a um modelo vivo e com um comportamento agressivo e, paralelamente, expondo um outro grupo de crianças a um modelo televisivo igualmente agressivo, constatou que ambos os grupos de crianças, colocadas posteriormente no mesmo ambiente dos modelos observados, passavam a exibir a mesma magnitude de agressões diante de um boneco.

Somando-se a isso, o psicólogo norte-americano ainda descobriu que a observação na televisão de comportamentos considerados desviantes pela sociedade, ao serem punidos ou relativizados em novelas e filmes, tendem igualmente a inibir ou reforçar estes mesmos comportamentos naqueles que os assistem.

Como percebemos, as brincadeiras de nossas crianças, muitas delas oriundas do universo observado nos televisores, diariamente, assumem a mesma dimensão defendida por Platão. Observar a natureza das brincadeiras aprendidas, dos personagens imitados e agora transportados dos filmes para a vida real torna-se uma tarefa indispensável.

Por outro lado, o postulado espírita, de que mais valem as atitudes que as palavras, como assevera a mentora espiritual Joanna de Ângelis, recebe agora a sua comprovação dos homens da ciência.

Que virtudes estamos transmitindo às crianças? Que ambiente modelador da personalidade e das ações dos futuros cidadãos estamos oferecendo diariamente?

Fugirmos a essas reflexões, tentando esconder as crianças em um suposto mundo infantil desconexo do mundo adulto, sob argumentações de que as crianças “não compreendem”, de que são “ingênuas”, e nada assimilam daquilo que observam, não se faz mais possível. Antes será atitude irresponsável, fruto de um descomprometimento com a sociedade na qual vivemos.

Se os gregos valorizaram em demasia o exterior, em uma cultura que não desenvolvia os sentimentos, hoje, após a descoberta do espírito imortal, disfarçado no pequeno corpo infantil, torna-se imperiosa a necessidade dos exemplos e das virtudes propostas por Jesus, como a solidariedade, a humildade, o amor incondicional e o respeito às liberdades individuais expressas no …Amar ao próximo como a si mesmo.

De outra forma, prosseguiremos assistindo ao aumento vertiginoso dos crimes, aos desmandos da corrupção política e à falta de harmonia que viceja em muitos lares, onde a infância que se tornou adulta não experimentou o amor… e na qual a educação para os valores e a aprendizagem da justiça simplesmente inexistiu…

Bibliografia:

ÂNGELIS, Joanna de (2005). Libertação pelo Amor. Psicografia de Divaldo P.Franco. – Salvador, BA: Livraria Espírita Alvorada.
(2001). Nascente de Bençãos. Psicografia de Divaldo P. Franco. – Salvador, BA: Livraria Espírita Alvorada.
BARROS, Gilda Naécia de (1995). Platão, Rousseau e o Estado Total. – São Paulo: TA Queiroz (Biblioteca básica de ciências sociais: v.9).
CAMBI, Franco (2001). História da Pedagogia. – São Paulo: UNESP.

COLL, César, Palacios & Marchesi (2004). Desenvolvimento Psicológico e Educação (v.2). – Porto Alegre: Editora Artmed.

ERIKSON, Erik (1971). Infância e Sociedade. – Rio de Janeiro: Zahar Editora.

FADIMAN, James & Frager, Robert (1986). Teorias da Personalidade. – São Paulo: Editora Harbra.
FREITAG, Bárbara (2001). O indivíduo em formação: diálogos interdisciplinares sobre educação. – São Paulo, Cortez (Coleção Questões de Nossa Época).

HALL, Calvin Springer & Lindzey, Gardner & Campbell, John B. (2000). Teorias da personalidade. – Porto Alegre: Artes Médicas.

– Adriano Oliveira (RS)
E-mail: psic.adriano_oliveira@yahoo.com.br

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