Benedicência

E não murmureis, como alguns deles murmuraram, e pereceram pelo destruidor. Corintios 1,10

Muitos leitores estranharão o título desta minha matéria . Realmente, o vocábulo acima, não será encontrado nos atuais dicionários da língua Portuguesa. Outros poderão dizer que é muita audácia desta colunista, agir como os “Guimarães Rosas” da vida! Mas, valho-me da constante força dinâmica e mutativa da língua portuguesa para explicar tamanho atrevimento!

Houve um tempo em minha vida, parafraseando Cecília Meireles, que minha janela abriu-se para uma vida bancária. Nessa época aprendi muitas coisas e vali-me bastante, da disciplina que me foi imposta, por força das normas regulamentares da instituição. Eu trabalhava no setor de Cadastro, e era comum as empresas nos procurarem para solicitar , uma ou outra informação, deste ou de outro cliente. A lisura com que tratávamos o assunto não nos permitia passar por cima das instruções , e sempre nos esquivávamos dos pedidos dos clientes de forma educada, porém, segura e taxativa. Certo dia, escutei uma conversa travada ao telefone por um chefe e uma destas empresas, onde ele ,gentilmente, fornecia informações e naturalmente declinava as que eram de natureza confidenciais. Ao término do referido telefonema indaguei-o:

– Não é proibido pelas instruções dar informações de cadastro?

Ao que ele jocosamente me respondeu:

– E desde quando é proibido falar bem de alguém?

A resposta me deu muito o que pensar.

Agora , minha janela abre para novos horizontes. Já não faço mais parte da instituição, mas a lição permaneceu gravada em meus refolhos.

Acostumados que estamos ao vicio do falar mal, dificilmente nos deparamos com os que estão acostumados a falar bem. E muitas vezes quando o fazemos, estranhamos a atitude, estereotipando o que estamos ouvindo.

Estamos acostumados com o vício da maledicência. Pessoas há, que se comprazem em falar mal da vida alheia com riqueza de detalhes, que se divertem espalhando más notícias e adicionando o fel como tempero para sua própria interpretação. Quanto mais escabrosa a notícia, mais divertida se torna a tarefa, pouco importando o sabor amargo Assemelham-se a víboras, que através da boca destilam veneno…

Nosso Mestre Jesus, assim encarava a maledicência:

Raça de víboras! como podeis vós falar coisas boas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca. Mateus, 12,34.

É preciso estarmos vigilantes quanto a esta questão. Devemos reverter a situação e ao invés de sermos maledicentes cultivarmos o hábito do falar bem. Não só o falar bem chancelado pela norma culta do português, e nem a bajulação servil dos que tendem tirar vantagem da situação, mas o falar bem embasado na conduta de um cristão sincero que realmente apreendeu o que o Mestre quis falar. Deixando que nossa boca externize o que de melhor existir em nossos corações. Utilizarmos finalmente em nossas vidas esse vocábulo que à similitude dos grandes escritores da nossa Língua ousei grafar no título desta coluna – Benedicência, que no final será a faculdade de falar bem de alguém.

– Agnes Henrique Soares Leal (MG)
E-mail: ahleal@uol.com.br

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